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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Enquanto o carnaval não vem...

Nesse fevereiro não teve carnaval. Para a desalegria de milhões de colombinas e arlequins ele não veio cedo dessa vez. A boa noticia é que fevereiro passou veloz. Como se não bastasse já termos a sensação de que o ano passa mais rápido que o tal do meteoro da paixão, o ansioso do mês de fevereiro tem preguiça de durar demais e se recolhe antes do ato final com seus míseros 28 dias. Junto com ele vai o nosso querido horário de verão e suas promessas de tardes mais longas, porém ele deixa para março um calor que chega a deixar nossa alma bronzeada de tão quente!
Fevereiro sai de cena, entra março e suas águas para cortarem as asinhas desse verão. Por enquanto deixa o verão, porque carnaval na chuva nem vendedor ambulante de guarda-chuvas da Uruguaiana deve gostar. 
E lá vem o carnaval, com suas serpentinas, confetes, purpurina, máscaras, banheiros químicos, marchinas, alegorias e adereços. Lá vem ele todo glamoroso e tomando conta do pedaço. Se o carnaval fosse uma pessoa seria desses tios que todo mundo tem na família, meio ausente, não aparece no natal, nem no aniversário da vovó, não liga para saber se a família tá bem, e não manda chocolate para as crianças na páscoa, mas quando ele aparece de surpresa, repentinamente, todos se reúnem para receber aquele que representa a alegria da casa, a vovó bate palminhas, o vovô abre os braços, os irmãos cantam e dançam e as crianças pulam feito pipoquinhas na panela.
Apesar de falarem mal dele por um tempo, quase ninguém resiste aos seus encantos quando ele chega. Até se arrumam e tiram dos armários suas melhores fantasias.
O melhor do “Tiozão” chegar só em março é que o ano ainda nem começou. Estamos praticamente em clima de réveillon, o ano está só começando para nós ainda, então temos tempo de fazer resoluções e reorganizar nossas vidas. Para mim, nós brasileiros temos a oportunidade de começar do zero 2 vezes.
Carnaval é renovação, além de diversão, bebedeira, calorias perdidas em blocos, ele recarrega as baterias, energiza a mente, o corpo e dá um banho de suor e cerveja na alma.  Mas atenção! Só para quem se permitir a viver e se entregar a seus deleites.
Não tenha pressa para o carnaval chegar, deixe ele vir com calma e na dose certa, enquanto ele não vem nos sobra tempo para aproveitar o ano aos poucos. Depois do carnaval os dias voam, as  horas transformassem em segundos e a vida agita-se como se vivêssemos imersos num liquidificador.
 Então, recomece o seu ano, refaça suas resoluções, estoure o champanhe novamente! Só nós temos essa chance duas vezes, vista a fantasia e escolha o que vai ser pelo resto desse ano. Depois que o carnaval passar a vida começa de novo. Até agora foi tudo ensaio técnico, corra atrás do seu bloco e entra nessa avenida de peito aberto e samba no pé.

domingo, 21 de novembro de 2010

Ouvi-dor

Rio de Janeiro, centro da cidade, sábado, qualquer hora do fim do dia. A cidade está só começando, e o horário de verão nos permite pelo menos mais 1 hora e meia de extensão da vida.
Enquanto o sol não vai embora ainda resta alguma expectativa do algo a mais.
Um samba ecoa de algum canto dessa localidade, poucas pessoas trafegam pelo centro. Existe uma calma e permanência. Num sábado despretensioso ninguém corre contra o expediente. A cidade pode ser assim admirada, assim como as esposas que durante a semana não ganham o olhar dos maridos super ocupados, elas contam com a sorte que no fim de semana eles as olhem e as contemplem, e comentem sobre o novo corte de cabelo.
O centro da cidade é mais ou menos assim, muito procurado, bem requisitado, mas quase nunca notado.
 O samba aumenta, vem do outro lado da Avenida Rio Branco. Nada, nem menos a constante ameaça das ruas consegue inibir a vontade de chegar aonde surge a música.
O vazio das ruas e o pouco sol que ainda dá as caras são as únicas testemunhas do que acontece nesse momento. Acontece um fim de tarde com uma cuíca ao fundo.
Ao chegar ao lugar de onde vem o som tudo parece diferente. É onde pulsa o coração da cidade num sábado que ela devia dormir.
São 18:34. Ninguém vê muita razão para ir embora.
 “Pessoal, a cidade está bem cansada, trabalhou a semana toda e segunda volta ao batente, vocês poderiam se retirar.”
Ninguém liga muito para o aviso, e a cidade não se importa. O horário de verão nos deixa esticar e pensar que ainda são apenas 4 da tarde...
Uma chuva leve cai, há correria para debaixo das marquises, instrumentos de som são guardados as pressas, moças se preocupam com a impermeabilidade dos cabelos, os copos de cerveja são devidamente protegidos de qualquer respingar da chuva.
Mas a chuva não espanta os foliões fora de época, alguém começa um batuque em uma mesa, logo contagia outros mais, as moças esquecem os cabelos, os rapazes tiram a blusa molhada.
No relógio ainda são 18:56...só as 7 e pouca vai escurecer, nem a chuva fez escurecer tanto brilho.
A cidade não quer descansar ainda, não se incomoda com tanta algazarra e batuque, ela está se deleitando, ela está sendo contemplada, e para ela que trabalha a semana toda embaixo de chuva ou sol e não ganha nem um sorriso dos visitantes apressados, para ela isso é mais que samba no fim da tarde, para ela é praticamente felicidade...e olha que ainda nem chegou o carnaval.