domingo, 17 de julho de 2011

A arte subiu no telhado

Ontem à noite fui convidada por uma amiga a assistir um espetáculo em Cartaz no Oi Casa Grande, no Leblon. “Um violinista no telhado” em sua versão original foi um grande sucesso na Broadway por muitos anos e conta a história de judeus que vivem em uma aldeia, praticamente isolados do resto da Rússia czarista em 1905. Parece um enredo triste e sombrio, mas não é. O título da peça é explicado logo no início pelo personagem principal, o leiteiro Tevye, na tradição judaica o violinista fica no telhado tocando seu violino para representar o equilíbrio, os deslocamentos e instabilidade que o próprio povo judeu  atravessa em toda a sua trajetória na história.
Mas eu não sabia nada disso até minha amiga surgir com dois ingressos e me convidar para peça. Eu prontamente aceitei, fazia bastante tempo que não ia ao teatro. E perguntei “Qual peça?” “Ah sim! Já ouvi falar sim, obviamente que sei que se trata de uma peça importante, só não sabia que estava em cartaz no Brasil”.
Chegando ao Teatro olho para o cartaz do espetáculo leio os nomes de José Mayer e Soraya Ravenle “eles estão na peça?”-pensei alto, me dei conta que não sabia nem quem atuava na peça, nem os protagonistas e nem os outros 60 atores, desconhecidos pelo grande público.
Já sentadas, minha amiga disse que se tratava de um musical-“É um musical??" - indaguei surpresa- “Eu adoro musicais!!”. Esta era outra informação crucial que eu não tinha sobre o espetáculo.
Pouco antes de o espetáculo começar sussurro no ouvido dela, “mas sobre o que é essa peça?”, a luz se apaga, e entre a minha pergunta, o silêncio dela e a cortina se abrindo, eu percebi que nada sabia sobre o que eu estava prestes a conhecer.
O único pensamento que passava pela minha cabeça repetidamente enquanto os atores cantavam, dançavam e interpretavam era que as pessoas precisavam ver aquilo. No intervalo da peça eu dizia isso para minha amiga, que mãe, pai, irmão, papagaio e periquito deveriam ter o mesmo privilégio que eu estava tendo.
Mas eles não teriam, e eu não teria se não estivesse a convite de alguém. A maioria da nossa população- me refiro tanto a grande massa, quanto  uma classe média sem tanta possibilidade de acesso- são constantemente acusados e julgados como desapreciadores da arte e da cultura. Segundo os porta vozes da Nação, o povo não se interessa pela história, pela nossa cultura, nosso folclore, pela leitura e arte em geral. “O povo é ignorante!”. “O povo é insensível!”. “O povo é aculturado!”. “O povo só têm ouvidos e olhos para o funk e o Big Brother!”.
Mas eu ouso afirmar, com grande convicção, que o povo gosta, se identifica com a cultura, porque não tem como não gostar. Enquanto eu assistia ao espetáculo ontem,  me emocionei por várias vezes, e pensei quem não se emocionaria com tamanha beleza e originalidade?
Não é que o povo não goste da arte, é que o povo não conhece a arte. Arte custa caro. Pois quando não custa, quando é barateada para comunidades e afins terem algum acesso à ela, a arte é capaz de transformar, ela encanta, ela realmente se define como arte, e aqueles que vivem tão à margem dela são capazes de se identificar. 
Eu não me encantei pelo espetáculo e o apreciei enquanto arte porque sou universitária e tenho acesso aos centros culturais e leio livros, não é por isso! A razão da minha emoção é que sou humana, e nós humanos somos padecidos do dom da sensibilidade. E, é esta que nos conduz a enxergar o que há por trás de uma obra de arte, de um belo filme, uma peça de teatro, uma interpretação. Não precisa ser rico para saber que algo é bom. Às vezes, algumas pessoas não desenvolvem sua sensibilidade apreciativa exatamente por não ter acesso as belezas produzidas na cultura.
A distância que a produção de cultura e o governo fazem entre o que é produzido e a massa é que impede cada vez mais o reconhecimento da cultura como algo apreciável e bom para eles. Elitizar a cultura assassina as pessoas, as deixam ainda mais carentes e inferiorizadas, a conseqüência disso são as notícias de jornal e que mais tarde viram enredo para a dramaturgia corrigir.  



    

domingo, 8 de maio de 2011

casamento real x vida real

     O mega e sensacionalista casamento do século entre o príncipe encantado com a plebéia está nos deixando emocionados e românticos ou já está dando no saco? Será que voltamos à era dos príncipes em cavalos brancos e suas gatas borralheiras? Será tempos de moças em suas torres resgatadas por seus heróis? Ou então, esqueçamos a historinha e sejamos contemporâneos e conscientes (e céticos!) e analisemos apenas a massificação da mídia em cima de uma família Real quase decadente que se produz em chapéus e diamantes de safira só pra Inglês ver! 
Nesse texto eu vou me equilibrar em corda bamba, tanto para ter um olhar crítico desse circo matrimonial, quanto para entrar de cabeça no conto de fadas como se eu estivesse assistindo a um DVD da Disney.
Talvez seja a época perfeita para se falar em romances. Talvez o próprio mundo esteja clamando por um pouquinho mais de fantasia e emoção, não é a toa que a formula príncipe+ princesa= “felizes para sempre” está entrando tanto na moda. Quem sabe, crianças assassinadas, mulheres violentadas, jovens bombardeados, os abusados pela pedofilia, os bebês abandonados nos lixões, talvez, eles estejam pedindo por mais amor ao invés das notícias sobre suas tragédias. Mas isso é mera suposição minha...
Talvez devêssemos todos nos apaixonar. Se substituíssemos os sintomas dos apaixonados pelas ações que vemos recorrentes nos telejornais acho que todos nós agradeceríamos, não? Frio na barriga, arrepios, sorrisos, coração batendo são os sentimentos que a paixão provoca, imagina isso tudo substituindo tsunamis, terremotos, mães que jogam seus bebês nas latas de lixo, loucos a atirar em crianças, pais que abusam de suas meninas. A história da humanidade seria melhor que conto da Carochinha, né?
 
A insistência constante da mídia para entrarmos no clima do casamento real acaba por desgastar a imagem dos noivos, com programas diariamente sobre a família real, sobre o vestido de Kate, sobre o passado de Kate, sobre o casamento da falecida sogra da Kate, sobre a cor do coco da Kate, sem falar nos quizzes para saber se você é expert em assuntos da realeza. É exaustivo, mas surpreendentemente encantador para todos que são bombardeados dia a dia com a realidade nua e crua.
Sim, o casamento de William e Kate é um escapismo, e daí? Quem nunca foi pra praia espairecer, viajou para fugir dos problemas, largou a família  pois não agüentou a pressão, fugiu para casa do amiguinho porque não queria ficar de castigo, ou foi para um bar com os amigos porque não agüentava mais a mulher em casa reclamando? Os milhões de expectadores do conto de fadas real também precisam relaxar e tentar uma fuga.
Bem, vou contar aqui que minha mãe sonhava que um dia eu me tornase um membro da realeza, e a vejo suspirando vendo as imagens de Kate e William na TV imaginando que podia ser eu no lugar dela.
Pobre da minha mãe, mal sabe o que a coitada da Kate vai passar. Ela vai ter no pé dela uma rainha mãe ranzinza, um país inteiro para prestar contas, e o príncipe encantado dela já está ficando careca, daí para a barriga crescer e outras coisas começarem a cair é um pulo!
Nesse clima de conto de fadas eu digo que já encontrei meu príncipe, e ele não é calvo! Posso não ganhar o tal anel de safiras e nem usar um cinto de diamantes, mas meu príncipe cozinha para mim e me engorda a cada fim de semana, enquanto eu lavo a louça após cada refeição e pode nem ser para vocês, mas para mim isso é puro conto de fadas e eu me sinto a princesa do meu mundinho encantado.
Meu príncipe me faz rir, e acaba por me fazer rir de mim mesma. O príncipe não veio no cavalo branco mas os passeios nos transportes públicos são divertidíssimos.
Fico feliz por você princesa Kate, seja a princesa que a mídia tanto deseja ver e fazer capas de revista, e me deixa aqui sendo a princesa do meu conto de fadas.

* eu sei que o texto está meio atrasado pelo tema que aborda, mas os últimos dias me impediram de uma atualização simultânea aos acontecimentos do mundo! Como o texto já estava escrito e só precisava  de  retoques, não quis deixar de posta-lo! Beijos!

domingo, 24 de abril de 2011

Falta livros para tanto ler!

     O meu primeiro livro veio antes do primeiro amor chegar e antes da chupeta ir embora. Sim deixei a chupeta um pouco velha e lembro-me dela comigo enquanto eu lia um livrinho de um ratinho que tinha medo de escuro.  

     Lembro bem de uma grande curiosidade com os livros, mesmo sem lê-los, me fascinava as altas estantes de livros, gostava de bancar a alpinista nas prateleiras da minha mãe. Me encantava a poeira nos livros, que parece fazer parte da história que está escrita neles, sem falar na mágica  sincronia perfeita e desordenada feita pelos livros nas prateleiras, um de cada tamanho, enfileirados, altos, baixos, magros, gordos com tantas páginas. Se não fossem as biblioteconomistas diria que os livros organizam-se sozinhos, na sua própria lógica.

      A idéia de escrever sobre a leitura e os livros veio a mim no fim de semana, quando comecei a ler um livro com crônicas do João do Rio, que escreve sobre a cidade de forma tão poética e visceral, fala das ruas de forma tão humana! Eu sempre quis ler essas crônicas, até que finalmente esse encontro aconteceu. Gosto de pensar que nós, os livros e seus autores dependemos de algumas manifestações do destino, esses encontros tem que acontecer uma hora ou outra, por uma coincidência ou pelas mãos de uma pessoa especial, ou alguém muito determinado a mudar sua vida com a indicação de um livro. Mas é fato que os livros chegam até nós como  truque do destino.
    
        É um grande acontecimento quando temos a enorme deleite de adentrar em um universo nunca antes imaginado, conhecer pessoas das mais diversas personalidades, adentrar a vida delas sem pedir permissão e participar de tudo sem estar olhando o buraco da fechadura. Quando abrimos um livro estamos entrando  em um novo mundo, sendo ele sobre o que for. É fato que depois de lê-lo não somos mais os mesmo. Alguma coisa aprendemos com as leituras, daquelas páginas sugamos sua essência, sua arte, sabedoria, criatividade, nada é mais a mesma coisa depois da leitura de um livro.
 
       Eu queria poder ter esse encontro com todos os autores, leio pelo menos um livro de cada autor para ter a falsa impressão que tenho conhecimento sobre eles. Lendo apenas um livro do Jorge Amado é como se já tivesse apertado sua mão, ter lido muitos da Agatha Christie sinto como tomasse um chá com ela a cada livro, é como se eu tivesse participado de longos debates teóricos com Rousseau e Maquiavel, sei que brinquei com Ziraldo e ouvi a própria Cecília recitar suas poesias para mim. Sem falar de três encontros emocionantes com Gabriel Garcia Márquez que me tiraram o fôlego. E agora que terminei a introdução do livro do João do Rio já sinto que perambulo com ele pelas vielas e becos do Rio de Janeiro do início do século passado.
   
       Gosto dos livros perto de mim, mesmo se não vou ler todos eles, adoro a surpresa que esta dentro deles, dos segredos que guardam e tudo que tem para me revelar, gosto de ter a impressão que eles estão me olhando, estáticos, em seus lugares, esperando a hora que vou procurar por eles ,quando chegar o nosso momento de nos encontrar.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Querida vó

Não quero fazer desse um texto mórbido, nem padecido de tristeza, nem frases de efeito, nem minimizar seus problemas diante da minha perda, muito menos lições de vida, não quero o peso aqui. Vou dispensar o peso, ou melhor, vou livrar Antônia dos fardos que sempre carregou em vida e como meu último (talvez único) feito vou dar a ela, leveza!
Quando a notícia chegou não sabia exatamente as emoções que deveriam se apossar de mim, tal fato era inédito até então. É como se fosse um fim de um espetáculo realmente. A narrativa pode ser cômica ou trágica, mas o desfecho é o mesmo, a sentença é decretada, desligam-se os aparelhos, um último suspiro acontece, fecham-se as cortinas, é o ultimo ato. Dali pra frente, o que vem depois que as cortinas se fecham é só para quem acredita.
Para mim é tudo que permanece. É o que fica em mim, no entanto está indo embora. Vai-se embora tudo que me lembro e que era bom. O gosto da tangerina geladinha coberta por açúcar cristal, abacate congelado, maçã raspadinha na colher, rapadura que não é mole, mas cortadinha e dada na boca fica um doce só! Ainda guardo o cheiro do casaco e camisolas guardadas no armário com sache. Desde que me dou por gente a pele já era enrugada, os cabelos eram brancos, o corpo pequenino e cansado, mas com a força necessária para segurar essa que vos escreve no colo quando era um bebê, fanática pela boneca da Mônica.
É impressionante como a chegada da morte de alguém nos leva como num jato para o passado em comum com ela. Bem, para mim já faz parte do meu passado, para ela já deveria ser o principio do fim de uma longa jornada. O meu passado, que deveria ser o presente para ela, ainda tem cheiro de batata frita! Sim! Batata frita!
E não era batata frita comum, essas eram cortadas em quadradinhos não em tiras e dentro de toda a minha visão leiga gastronômica o fato delas serem cortadas de outra forma fazia toda diferença do mundo no sabor. As outras crianças sempre diziam que a melhor batata frita que comiam era do Mac Donald, e lá vinha eu toda metida e com uma autoridade única para afirmar que a melhor batata frita feita no mundo era a da minha avó!
Depois de comê-las num pratinho colorido de plástico, no lanche da tarde eu podia abusar do pão com mortadela ou da combinação perfeita de pão com manteiga e açúcar. Sério, eu não sei como não fui uma criança obesa.
Dentre as lembranças maravilhosas que temos da infância que inclui pique – esconde, pique-pega, aprender a andar de bicicleta, queimado, recreio, biscoito mirabel, dar comidinha para boneca, ralar o joelho ao cair na brincadeira, na base dessa pirâmide está uma AVÓ. Tem coisa que lembra mais infância do que a avó?
A minha avó tinha ainda na memória todas as gracinhas que eu fazia quando pequena, as primeiras palavras, coisas que nem minha mãe lembra mais. Tudo que eu via nela era uma pureza única, um olhar que apesar de todos os anos que carregava só guardava inocência, como uma criança que não teve tempo de brincar tudo o que devia.
No meu ultimo aniversário ela mandou me entregar um presente, uma gatinha de pelúcia rosa que mia quando leva palmadinhas. É ou não é inocência pura? A partida dela, no entanto é a minha primeira perda, é a ficha caindo (ou não ainda) que crescendo a gente acaba perdendo também. Porém uma calma incrível se instala em mim porque não sinto mais tanto medo, pois dessas perdas nascem os anjos que nos protegem. 

sábado, 12 de março de 2011

Cinzas de carnaval

Lá se foi o carnaval e assim como lhe dei eufóricas boas vindas me despeço dele e de suas plumas, paetês e cinzas.
Você se permitiu como sugeri no ultimo post? Permitiu se fantasiar, inovar, provocar, “se jogar” como dizem os populares? Se sua resposta foi sim, feliz ano novo para você que lavou a alma e sujou os pés, chinelos e tênis nas poças deixadas pelas chuvas, que foi persona non grata nesse carnaval.
O clima fantasiou-se com um céu parcialmente nublado, cinza sem brilhos ou paetês e com a danada de uma chuvinha. Mas quer saber? Ela nem abalou os foliões, ê povo que gosta de pular!
No centro da cidade a indústria das escolas de samba do carnaval deu seu show tão esperado.  Ao fim de todo o espetáculo com direito a homens que perdiam suas cabeças, fantasias e alegorias que brotaram das cinzas, King Kong comendo Valeska, mesmo com todas as atrações a indústria só é incapaz de inovar e nos surpreender com os resultados finais.
Qual é a linha de produção que conduz e controla essa indústria? Fordismo? Taylorismo? Picaretismo? Corrupcionismo?? 
 
Saúdo a massa de manobra responsável por colocar um carnaval bonito para turista ver, essa talentosíssima mão de obra que viaja de trem, ônibus e metro para fazer os dois dias desse espetáculo.
Aplaudo os grandes artistas, artesãos, os que arquitetam o carnaval com suas mentes fantásticas e sem limites.
Acho o fim da picada os donos das fábricas e os investidores. Os senhores investidores dessa indústria transformaram beleza, arte e tradição em máquina de lucro, em galinha dos ovos de ouro.
Na contra mão das escolas de samba desponta de toda região da cidade uma nova linha de produção, surgem os blocos de rua. Eles podem não fazer concorrência com a indústria carnavalesca, mas aparecem no cenário cultural-economico como alternativa para os que fogem ou não tem como financiar uma participação no carnaval de elite.  
 
Os blocos de rua carregam por trás de sua euforia uma bela historia das ruas, seus antepassados eram os cordões de carnaval embalados pelas marchinhas de Chiquinha Gonzaga, e tempos depois Braguinha também embalou os pulos dos foliões.
Os blocos antes tinham a participação especial de colombinas, pierrôs, arlequins, mascarados, reis, rainhas, hoje recebem fantasias das mais criativas, tem lugar para as clássicas bruxinhas, palhaços, piratas, baianas, às inovadoras como cisne negro, surfista prateado, ambulante, Bope! Abusar da criatividade é a ordem!
Que essa nova fábrica de proporcionar alegria não se renda ao sistema e coloque um cordão de isolamento que separe os foliões que usam abadas e os que não o compram..Não vamos uniformizar as pessoas! Que os abadas não tomem conta do nosso carnaval como aconteceu na Bahia.!Que possamos sempre nos fantasiar, customizar e criar personagens com os retalhos e cetins que temos a mão!
Que nossa liberdade de expressão e criação não seja oprimida pela padronização como aconteceu com os carnavais das escolas de samba. Em 2012 quero ver um carnaval cada vez mais livre e uma cidade bem organizada por aqueles que vivem a fazer propaganda e exigir de nós nossa atitude de cidadão, porque o resto é a alegria de cada um.

TROVADORES URBANOS - CARNAVAL

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Enquanto o carnaval não vem...

Nesse fevereiro não teve carnaval. Para a desalegria de milhões de colombinas e arlequins ele não veio cedo dessa vez. A boa noticia é que fevereiro passou veloz. Como se não bastasse já termos a sensação de que o ano passa mais rápido que o tal do meteoro da paixão, o ansioso do mês de fevereiro tem preguiça de durar demais e se recolhe antes do ato final com seus míseros 28 dias. Junto com ele vai o nosso querido horário de verão e suas promessas de tardes mais longas, porém ele deixa para março um calor que chega a deixar nossa alma bronzeada de tão quente!
Fevereiro sai de cena, entra março e suas águas para cortarem as asinhas desse verão. Por enquanto deixa o verão, porque carnaval na chuva nem vendedor ambulante de guarda-chuvas da Uruguaiana deve gostar. 
E lá vem o carnaval, com suas serpentinas, confetes, purpurina, máscaras, banheiros químicos, marchinas, alegorias e adereços. Lá vem ele todo glamoroso e tomando conta do pedaço. Se o carnaval fosse uma pessoa seria desses tios que todo mundo tem na família, meio ausente, não aparece no natal, nem no aniversário da vovó, não liga para saber se a família tá bem, e não manda chocolate para as crianças na páscoa, mas quando ele aparece de surpresa, repentinamente, todos se reúnem para receber aquele que representa a alegria da casa, a vovó bate palminhas, o vovô abre os braços, os irmãos cantam e dançam e as crianças pulam feito pipoquinhas na panela.
Apesar de falarem mal dele por um tempo, quase ninguém resiste aos seus encantos quando ele chega. Até se arrumam e tiram dos armários suas melhores fantasias.
O melhor do “Tiozão” chegar só em março é que o ano ainda nem começou. Estamos praticamente em clima de réveillon, o ano está só começando para nós ainda, então temos tempo de fazer resoluções e reorganizar nossas vidas. Para mim, nós brasileiros temos a oportunidade de começar do zero 2 vezes.
Carnaval é renovação, além de diversão, bebedeira, calorias perdidas em blocos, ele recarrega as baterias, energiza a mente, o corpo e dá um banho de suor e cerveja na alma.  Mas atenção! Só para quem se permitir a viver e se entregar a seus deleites.
Não tenha pressa para o carnaval chegar, deixe ele vir com calma e na dose certa, enquanto ele não vem nos sobra tempo para aproveitar o ano aos poucos. Depois do carnaval os dias voam, as  horas transformassem em segundos e a vida agita-se como se vivêssemos imersos num liquidificador.
 Então, recomece o seu ano, refaça suas resoluções, estoure o champanhe novamente! Só nós temos essa chance duas vezes, vista a fantasia e escolha o que vai ser pelo resto desse ano. Depois que o carnaval passar a vida começa de novo. Até agora foi tudo ensaio técnico, corra atrás do seu bloco e entra nessa avenida de peito aberto e samba no pé.