domingo, 24 de abril de 2011

Falta livros para tanto ler!

     O meu primeiro livro veio antes do primeiro amor chegar e antes da chupeta ir embora. Sim deixei a chupeta um pouco velha e lembro-me dela comigo enquanto eu lia um livrinho de um ratinho que tinha medo de escuro.  

     Lembro bem de uma grande curiosidade com os livros, mesmo sem lê-los, me fascinava as altas estantes de livros, gostava de bancar a alpinista nas prateleiras da minha mãe. Me encantava a poeira nos livros, que parece fazer parte da história que está escrita neles, sem falar na mágica  sincronia perfeita e desordenada feita pelos livros nas prateleiras, um de cada tamanho, enfileirados, altos, baixos, magros, gordos com tantas páginas. Se não fossem as biblioteconomistas diria que os livros organizam-se sozinhos, na sua própria lógica.

      A idéia de escrever sobre a leitura e os livros veio a mim no fim de semana, quando comecei a ler um livro com crônicas do João do Rio, que escreve sobre a cidade de forma tão poética e visceral, fala das ruas de forma tão humana! Eu sempre quis ler essas crônicas, até que finalmente esse encontro aconteceu. Gosto de pensar que nós, os livros e seus autores dependemos de algumas manifestações do destino, esses encontros tem que acontecer uma hora ou outra, por uma coincidência ou pelas mãos de uma pessoa especial, ou alguém muito determinado a mudar sua vida com a indicação de um livro. Mas é fato que os livros chegam até nós como  truque do destino.
    
        É um grande acontecimento quando temos a enorme deleite de adentrar em um universo nunca antes imaginado, conhecer pessoas das mais diversas personalidades, adentrar a vida delas sem pedir permissão e participar de tudo sem estar olhando o buraco da fechadura. Quando abrimos um livro estamos entrando  em um novo mundo, sendo ele sobre o que for. É fato que depois de lê-lo não somos mais os mesmo. Alguma coisa aprendemos com as leituras, daquelas páginas sugamos sua essência, sua arte, sabedoria, criatividade, nada é mais a mesma coisa depois da leitura de um livro.
 
       Eu queria poder ter esse encontro com todos os autores, leio pelo menos um livro de cada autor para ter a falsa impressão que tenho conhecimento sobre eles. Lendo apenas um livro do Jorge Amado é como se já tivesse apertado sua mão, ter lido muitos da Agatha Christie sinto como tomasse um chá com ela a cada livro, é como se eu tivesse participado de longos debates teóricos com Rousseau e Maquiavel, sei que brinquei com Ziraldo e ouvi a própria Cecília recitar suas poesias para mim. Sem falar de três encontros emocionantes com Gabriel Garcia Márquez que me tiraram o fôlego. E agora que terminei a introdução do livro do João do Rio já sinto que perambulo com ele pelas vielas e becos do Rio de Janeiro do início do século passado.
   
       Gosto dos livros perto de mim, mesmo se não vou ler todos eles, adoro a surpresa que esta dentro deles, dos segredos que guardam e tudo que tem para me revelar, gosto de ter a impressão que eles estão me olhando, estáticos, em seus lugares, esperando a hora que vou procurar por eles ,quando chegar o nosso momento de nos encontrar.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Querida vó

Não quero fazer desse um texto mórbido, nem padecido de tristeza, nem frases de efeito, nem minimizar seus problemas diante da minha perda, muito menos lições de vida, não quero o peso aqui. Vou dispensar o peso, ou melhor, vou livrar Antônia dos fardos que sempre carregou em vida e como meu último (talvez único) feito vou dar a ela, leveza!
Quando a notícia chegou não sabia exatamente as emoções que deveriam se apossar de mim, tal fato era inédito até então. É como se fosse um fim de um espetáculo realmente. A narrativa pode ser cômica ou trágica, mas o desfecho é o mesmo, a sentença é decretada, desligam-se os aparelhos, um último suspiro acontece, fecham-se as cortinas, é o ultimo ato. Dali pra frente, o que vem depois que as cortinas se fecham é só para quem acredita.
Para mim é tudo que permanece. É o que fica em mim, no entanto está indo embora. Vai-se embora tudo que me lembro e que era bom. O gosto da tangerina geladinha coberta por açúcar cristal, abacate congelado, maçã raspadinha na colher, rapadura que não é mole, mas cortadinha e dada na boca fica um doce só! Ainda guardo o cheiro do casaco e camisolas guardadas no armário com sache. Desde que me dou por gente a pele já era enrugada, os cabelos eram brancos, o corpo pequenino e cansado, mas com a força necessária para segurar essa que vos escreve no colo quando era um bebê, fanática pela boneca da Mônica.
É impressionante como a chegada da morte de alguém nos leva como num jato para o passado em comum com ela. Bem, para mim já faz parte do meu passado, para ela já deveria ser o principio do fim de uma longa jornada. O meu passado, que deveria ser o presente para ela, ainda tem cheiro de batata frita! Sim! Batata frita!
E não era batata frita comum, essas eram cortadas em quadradinhos não em tiras e dentro de toda a minha visão leiga gastronômica o fato delas serem cortadas de outra forma fazia toda diferença do mundo no sabor. As outras crianças sempre diziam que a melhor batata frita que comiam era do Mac Donald, e lá vinha eu toda metida e com uma autoridade única para afirmar que a melhor batata frita feita no mundo era a da minha avó!
Depois de comê-las num pratinho colorido de plástico, no lanche da tarde eu podia abusar do pão com mortadela ou da combinação perfeita de pão com manteiga e açúcar. Sério, eu não sei como não fui uma criança obesa.
Dentre as lembranças maravilhosas que temos da infância que inclui pique – esconde, pique-pega, aprender a andar de bicicleta, queimado, recreio, biscoito mirabel, dar comidinha para boneca, ralar o joelho ao cair na brincadeira, na base dessa pirâmide está uma AVÓ. Tem coisa que lembra mais infância do que a avó?
A minha avó tinha ainda na memória todas as gracinhas que eu fazia quando pequena, as primeiras palavras, coisas que nem minha mãe lembra mais. Tudo que eu via nela era uma pureza única, um olhar que apesar de todos os anos que carregava só guardava inocência, como uma criança que não teve tempo de brincar tudo o que devia.
No meu ultimo aniversário ela mandou me entregar um presente, uma gatinha de pelúcia rosa que mia quando leva palmadinhas. É ou não é inocência pura? A partida dela, no entanto é a minha primeira perda, é a ficha caindo (ou não ainda) que crescendo a gente acaba perdendo também. Porém uma calma incrível se instala em mim porque não sinto mais tanto medo, pois dessas perdas nascem os anjos que nos protegem. 

sábado, 12 de março de 2011

Cinzas de carnaval

Lá se foi o carnaval e assim como lhe dei eufóricas boas vindas me despeço dele e de suas plumas, paetês e cinzas.
Você se permitiu como sugeri no ultimo post? Permitiu se fantasiar, inovar, provocar, “se jogar” como dizem os populares? Se sua resposta foi sim, feliz ano novo para você que lavou a alma e sujou os pés, chinelos e tênis nas poças deixadas pelas chuvas, que foi persona non grata nesse carnaval.
O clima fantasiou-se com um céu parcialmente nublado, cinza sem brilhos ou paetês e com a danada de uma chuvinha. Mas quer saber? Ela nem abalou os foliões, ê povo que gosta de pular!
No centro da cidade a indústria das escolas de samba do carnaval deu seu show tão esperado.  Ao fim de todo o espetáculo com direito a homens que perdiam suas cabeças, fantasias e alegorias que brotaram das cinzas, King Kong comendo Valeska, mesmo com todas as atrações a indústria só é incapaz de inovar e nos surpreender com os resultados finais.
Qual é a linha de produção que conduz e controla essa indústria? Fordismo? Taylorismo? Picaretismo? Corrupcionismo?? 
 
Saúdo a massa de manobra responsável por colocar um carnaval bonito para turista ver, essa talentosíssima mão de obra que viaja de trem, ônibus e metro para fazer os dois dias desse espetáculo.
Aplaudo os grandes artistas, artesãos, os que arquitetam o carnaval com suas mentes fantásticas e sem limites.
Acho o fim da picada os donos das fábricas e os investidores. Os senhores investidores dessa indústria transformaram beleza, arte e tradição em máquina de lucro, em galinha dos ovos de ouro.
Na contra mão das escolas de samba desponta de toda região da cidade uma nova linha de produção, surgem os blocos de rua. Eles podem não fazer concorrência com a indústria carnavalesca, mas aparecem no cenário cultural-economico como alternativa para os que fogem ou não tem como financiar uma participação no carnaval de elite.  
 
Os blocos de rua carregam por trás de sua euforia uma bela historia das ruas, seus antepassados eram os cordões de carnaval embalados pelas marchinhas de Chiquinha Gonzaga, e tempos depois Braguinha também embalou os pulos dos foliões.
Os blocos antes tinham a participação especial de colombinas, pierrôs, arlequins, mascarados, reis, rainhas, hoje recebem fantasias das mais criativas, tem lugar para as clássicas bruxinhas, palhaços, piratas, baianas, às inovadoras como cisne negro, surfista prateado, ambulante, Bope! Abusar da criatividade é a ordem!
Que essa nova fábrica de proporcionar alegria não se renda ao sistema e coloque um cordão de isolamento que separe os foliões que usam abadas e os que não o compram..Não vamos uniformizar as pessoas! Que os abadas não tomem conta do nosso carnaval como aconteceu na Bahia.!Que possamos sempre nos fantasiar, customizar e criar personagens com os retalhos e cetins que temos a mão!
Que nossa liberdade de expressão e criação não seja oprimida pela padronização como aconteceu com os carnavais das escolas de samba. Em 2012 quero ver um carnaval cada vez mais livre e uma cidade bem organizada por aqueles que vivem a fazer propaganda e exigir de nós nossa atitude de cidadão, porque o resto é a alegria de cada um.

TROVADORES URBANOS - CARNAVAL

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Enquanto o carnaval não vem...

Nesse fevereiro não teve carnaval. Para a desalegria de milhões de colombinas e arlequins ele não veio cedo dessa vez. A boa noticia é que fevereiro passou veloz. Como se não bastasse já termos a sensação de que o ano passa mais rápido que o tal do meteoro da paixão, o ansioso do mês de fevereiro tem preguiça de durar demais e se recolhe antes do ato final com seus míseros 28 dias. Junto com ele vai o nosso querido horário de verão e suas promessas de tardes mais longas, porém ele deixa para março um calor que chega a deixar nossa alma bronzeada de tão quente!
Fevereiro sai de cena, entra março e suas águas para cortarem as asinhas desse verão. Por enquanto deixa o verão, porque carnaval na chuva nem vendedor ambulante de guarda-chuvas da Uruguaiana deve gostar. 
E lá vem o carnaval, com suas serpentinas, confetes, purpurina, máscaras, banheiros químicos, marchinas, alegorias e adereços. Lá vem ele todo glamoroso e tomando conta do pedaço. Se o carnaval fosse uma pessoa seria desses tios que todo mundo tem na família, meio ausente, não aparece no natal, nem no aniversário da vovó, não liga para saber se a família tá bem, e não manda chocolate para as crianças na páscoa, mas quando ele aparece de surpresa, repentinamente, todos se reúnem para receber aquele que representa a alegria da casa, a vovó bate palminhas, o vovô abre os braços, os irmãos cantam e dançam e as crianças pulam feito pipoquinhas na panela.
Apesar de falarem mal dele por um tempo, quase ninguém resiste aos seus encantos quando ele chega. Até se arrumam e tiram dos armários suas melhores fantasias.
O melhor do “Tiozão” chegar só em março é que o ano ainda nem começou. Estamos praticamente em clima de réveillon, o ano está só começando para nós ainda, então temos tempo de fazer resoluções e reorganizar nossas vidas. Para mim, nós brasileiros temos a oportunidade de começar do zero 2 vezes.
Carnaval é renovação, além de diversão, bebedeira, calorias perdidas em blocos, ele recarrega as baterias, energiza a mente, o corpo e dá um banho de suor e cerveja na alma.  Mas atenção! Só para quem se permitir a viver e se entregar a seus deleites.
Não tenha pressa para o carnaval chegar, deixe ele vir com calma e na dose certa, enquanto ele não vem nos sobra tempo para aproveitar o ano aos poucos. Depois do carnaval os dias voam, as  horas transformassem em segundos e a vida agita-se como se vivêssemos imersos num liquidificador.
 Então, recomece o seu ano, refaça suas resoluções, estoure o champanhe novamente! Só nós temos essa chance duas vezes, vista a fantasia e escolha o que vai ser pelo resto desse ano. Depois que o carnaval passar a vida começa de novo. Até agora foi tudo ensaio técnico, corra atrás do seu bloco e entra nessa avenida de peito aberto e samba no pé.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Adeus, Rio.

Rio, 15 de janeiro de 2011.
Da janela da onde escrevo a vista que tenho mais parece uma pintura impecável de algum artista que só vai ser revelado ao morrer. O que eu vejo é tão lindo que nem sei dar nome. É um fim de tarde (em tempos de horário de verão isso quer dizer que são 7 da noite), um sol que dá adeus sem vontade de ir embora, deixado pra trás, misturado com as nuvens, um tom rosa amora. A chuva que cai aqui é aquela choradinha que o céu deu depois de um dia inteiro do sol ardendo, como só ele sabe fazer. E para completar existe o mar, os mares! De uma única janela se observa várias praias, todas caminhando juntas para o fim da tarde, numa dança de ondas que mais parece ensaiada.
Se não fosse por outra tela quadrada não tão grande como a janela e nem tão admirável, jamais seria possível suspeitar que o Estado em que me encontro estava para se acabar.
De tantas outras janelas na subida da Serra a vista é outra. Ao invés de mar, existe lama No lugar das ondas em sincronia, enxurrada de tromba d’ água dos rios, ao invés do sol, chuvas torrenciais. Em oposição das nuvens rosa, olhando para o céu de lá, nuvens negras não param de se aproximar. No lugar da pintura que vejo, há um cenário de tragédia e destruição (sei que são palavras recorrentes dos telejornais, mas não consegui encontrar outras que se encaixassem tão bem). A paisagem é de mortes e mais mortes, mortes que não param de se multiplicar e tudo isso bem do lado da nossa casa.
Rios de lama, corpos nas lamas, ruas que viraram lama. Pontes partidas, estradas bloqueadas, morros que foram de encontro ao asfalto. Gente sem casa, sem eira nem beira, gente pendurada em corda, boiando em colchões, sem lenço, sem documento, sem os que dormiam ao seu lado noite da chuva, sorte daqueles que lhe sobraram um resto de vida. E tudo isso muito perto de casa.
Será esse mais um anúncio do fim dos tempos? Alguém uma vez me disse que o tal do apocalipse que tanto falam na verdade acontecerá aos poucos. Uma hora no Haiti, outra na Ilha de Sumatra, outra Nova Orleans, de pouquinho em pouquinho no Rio. Não existe um dia especifico para a catástrofe final, as destruições acontecem a cada dia, com vulcões revoltados, mares em revolução, rios tempestivos, chuvas alucinadas, temperaturas que ultrapassam todos os Celsius e Fahrenheits imagináveis.
O fim dos tempos está sendo todos os nossos dias, aos poucos nos elimina, nos manda embora desse planeta, a natureza mostra quem é a dona dessa casa e aponta com um dedo indicador os culpados de tanta revolta. O culpado se chama “nós”, em quem votamos, as ideologias que colocamos em liderança, a evolução na frente da preservação. O poder que nos rege acaba por se esquecer QUEM ou O QUE rege a todos nós.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Insensato coração

Sensatez de fato nada tem a ver com estado de plenitude que os seres apaixonados se encontram. Palavras como juízo, equilíbrio, prudência, cautela, ponderação não serão encontradas nem no Aurélio se a caso um apaixonado for procurar, o bom senso fica a ver navios, e os pés, que as pessoas mais experientes tanto nos alertam para ficar em solo firme, voam mais alto que o condor dos Andes (é o 4º pássaro a voar mais alto segundo a revista SUPER INTERESSANTE, a quem interessar possa).
Insensatez de braços abertos, se me permitem dizer, é um dos melhores estados de espírito que já vivenciei! Acredito até que o coração funcione melhor diante tamanho desapego a tudo que NÃO lhe convém. Preocupações, aborrecimentos, contas a pagar, TPM, pressões e tensões escapam por uma frestinha de uma janela que o coração criou depois de uma longa conversa com a mente. Se esse diálogo, de fato, pudesse acontecer seria mais ou menos assim:

-Faz tempo que não nos falamos, você está tão bonita!- diz o coração.
-Por que vem me desconcentrar? Estou a calcular e contabilizar as despesas do mês- rebate a mente
-Mas será que você só pensa nisso? Nunca relaxa e medita, é por isso que venho batendo tão acelerado!- se descontenta o coração
-És acelerado por natureza! Não culpe o equilíbrio que venho mantendo nesse corpo, mas vamos logo com isso...que ventos sentimentais te trazem aqui?- retruca a mente
- Não se faça de desentendida! Não é só porque você é racional, prática e fria que não está percebendo o que anda acontecendo por aqui. Precisamos trabalhar juntos nisso para que tudo aconteça da forma mais leve, harmoniosa e...
-Equilibrada! Ponderada! – exclama a mente já preocupada.
-Ora! Esqueça essa sua mania de manter tudo em ordem, não é preciso de ordem agora, nem regras muito menos juízo. Sua função vai ser eliminar tudo que venha atrapalhar meu trabalho, mandar embora tudo que não seja garantia de plenitude. Posso contar com você? – propõe um coraçãozinho todo saltitante e entusiasmado.

Seria esse o acordo perfeito que garantiria a insensatez do coração. Meu coração anda assim, querendo fazer apenas o que bem quer. Parece que criou asas, e anda desvairado com um porto seguro certo. Pouco se importa com atrasos, impedimentos, barreiras, diferenças, o certo e o errado. A distância alimenta, a saudade faz arder mais, o medo de perder faz renovar.
 Ele faz e  age como quer, tanto que ele está aqui digitando essas palavras e procurando a melhor forma de dizer como amar é pura sensatez.